Bruna Trindade: a pesquisadora que colocou Feira de Santana no topo da ciência ao vencer o maior prêmio acadêmico do Brasil
Desacreditada por muitos, escrita entre a maternidade e a pandemia, a pesquisa da doutora Bruna Trindade, desenvolvida em Feira de Santana, conquistou o maior prêmio de tese da CAPES e levou a UEFS ao topo da ciência brasileira.
Foto: Arquivo Pessoal
Enquanto as luzes do Natal Encantado se acendiam em Feira de Santana e a UEFS vibrava com a inauguração do maior teatro do interior da Bahia, outra luz feirense brilhava longe daqui. Quinta-feira passada (11/12), em Brasília, a doutora Bruna Trindade Gomes Carneiro iluminava o Distrito Federal com o brilho do conhecimento, ao conquistar uma dupla e histórica premiação da CAPES, culminando no Grande Prêmio de Tese da Área de Humanidades, o mais alto reconhecimento concedido a uma tese de doutorado no Brasil, em uma cerimônia que contou com a presença do do Ministro da Ciência e Tecnologia, representando o governo federal, e de diversas autoridades científicas do Brasil.
Desenvolvida na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), a pesquisa, segundo a autora, desacreditada por muitos e construída em meio à maternidade, à pandemia e a desafios pessoais, levou o nome da cidade ao topo da ciência nacional ao ser eleita a melhor tese de Humanidades do país, entre 25.941 trabalhos de doutorado avaliados.
Dupla conquista e feito inédito para as Letras
O primeiro reconhecimento veio com o Prêmio CAPES de Tese da Área de Linguística e Literatura, que elegeu o trabalho como o melhor da área, em agosto deste ano. Quatro meses depois, chegou o segundo, ainda mais raro: o Grande Prêmio Maria da Conceição Tavares, concedido a apenas três pesquisas em todo o Brasil, uma em cada grande área do conhecimento.
Feliz demais… Ainda sem acreditar! Mesmo com o prêmio já! Foi tão difícil escrever essa tese. Foi um contexto tão difícil… com um bebê no colo, sozinha…numa pandemia. Mas o Senhor me deu uma família e fez com que essa pesquisa (que foi desmerecida por muitos) fosse conhecida nacionalmente.
Feliz e em êxtase por sua tese ser considerada a melhor entre todas as áreas das Ciências Humanas, superando pesquisas de Educação, História, Geografia, Antropologia, Sociologia, Direito, Psicologia, Arquitetura, Administração, Design e Serviço Social, Bruna explicou ao Professor Repórter que esta é a primeira vez, nos 20 anos da premiação, que uma tese da área de Letras conquista o Grande Prêmio da CAPES. “Também é o primeiro Grande Prêmio da história da UEFS”, celebrou.
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Ao seu lado, em Brasília, estiveram reitora da UEFS, professora Amali Mussa, a professora Dra. Alícia Duhá Lose, orientadora de Bruna, o filho de Bruna, Miguel Trindade, e o esposo, Eriton Gomes Carneiro. Também acompanharam a cerimônia a coorientadora, professora Dra. Zenaide Carneiro, e a vice-coordenadora do Programa de Pós-graduação em Estudos Linguísticos (PPGEL/UEFS), professora Dra. Huda Santiago.
A pesquisa que venceu o descrédito
Intitulada “Um códice em língua geral: edição, estudo paleográfico e sócio-história da Amazônia (1750–1758)”, a tese se debruça sobre a língua dos povos originários e foi orientada pelas professoras Alícia Duhá Lose e Zenaide de Oliveira Novais Carneiro.
“Parabéns, Bruna! Vida longa às Ciências do Manuscrito, às Ciências do Texto e às Ciências da Língua! E, mais ainda, vida longa e saudável ao trabalho Interdisciplinar, em grupo, em parceria!”, escreveu Duhá, em uma rede social.
Ao relembrar o caminho percorrido, Bruna não esconde as marcas do processo. “A gente sabe quem é só curioso e quem celebra conosco. Quem só especula e quem é apoio, ombro amigo, sustento, parceria. Quem torce e quem desmerece. Quem incentiva e quem diminui”, escreveu, ao comentar a trajetória que culminou no reconhecimento nacional.
Ao Professor Repórter, ela relembrou o contexto em que a pesquisa foi construída. “Essa pesquisa foi desmerecida por muitos. Foi muito difícil escrever essa tese, em um contexto de pandemia, com um bebê no colo, praticamente sozinha. Mas hoje ela é reconhecida nacionalmente”, afirmou.
Sou grata porque esta conquista honra Feira de Santana, reafirma o valor da instituição que me formou (a UEFS) AUTOR
“Sou grata porque esta conquista honra Feira de Santana, reafirma o valor da instituição que me formou (a UEFS), reconhece o trabalho de professores e pesquisadores do ppgel, ce-dohs, nucleonelp e do modus-scribendi que realmente fizeram diferença”.
A UEFS também celebrou a grande conquista. “É a força da pesquisa, da ciência e da educação pública transformando o país. Parabéns, Bruna! Parabéns às orientadoras! Parabéns ao Programa de Pós Graduação em Estudos Linguísticos, à Pró Reitoria de Pesquisa e Pós Graduação, à nossa comunidade e à Bahia!”, escreveu em seu perfil na internet.
Segundo Bruna, o prêmio também fortalece os estudos dedicados às línguas indígenas e aos povos originários. “Fortalece os estudos dedicados aos povos originários: um campo que exige compromisso, não curiosidade passageira”, destacou.



Ela também fez questão de reconhecer o papel da orientação acadêmica. “Agora, nesta premiação, Alícia não apenas sorriu comigo e para mim: ela também chorou comigo. Desejo que todos sejam abençoados com uma orientadora como a que tive”.
Família, reconhecimento e fé
O apoio familiar foi decisivo ao longo da jornada. “Ao meu marido Eriton e ao meu filho, que foram meus braços, minhas pernas e meu coração”, escreveu Bruna. Ela também destacou sua fé: “E sempre a Ti, Jesus, Autor e Consumador da minha fé e dono de toda a ciência”, escreveu Bruna em suas redes sociais.
Sobre a vivência, percurso, dores e a coroação, seu esposo, Eriton Gomes Carneiro, também registrou o momento histórico. “Uma noite épica e memorável, que coroou todo o esforço, suor e lágrimas que você derramou nos últimos anos com os dois maiores prêmios do ecossistema acadêmico nacional, que indica excelência sistêmica, impacto e relevância, método e maturidade científica! Eu sempre disse que você é gigante, mas agora esses prêmios carimbam com peso sua envergadura!”.
Por fim, Bruna encerrou afirmando que essa conquista carrega ainda uma dimensão pessoal profunda. “Sigo também emocionada, enquanto mãe e mulher, pelo valor individual que isso tem; porque só a gente sabe (e só a gente precisa saber) quantos leões matamos e quantas serpentes esmagamos para estarmos aqui, hoje”. “Há quem chame isso de sorte. Mas eu não tenho fé suficiente para crer no acaso”, concluiu.











